Por Adriano Cansian (adriano.cansian@unesp.br)
Se você ainda não leu o relatório Global Cybersecurity Outlook 2026 [1] do Fórum Econômico Mundial, deveria fazer isso. É uma leitura obrigatória para qualquer líder que leve a transformação digital e a segurança cibernética a sério. Mas já aviso que a maioria das publicações no LinkedIn que comentaram o relatório caiu na armadilha do alarmismo: mais uma lista de ameaças, mais estatísticas assustadoras, mais recomendações genéricas. Tudo bobagem. Neste artigo, vou sair desse lugar comum.
Posso afirmar, com certeza, que o mais recente relatório não é apenas mais um alerta sobre ameaças cibernéticas. É um espelho que reflete uma verdade incômoda para a maioria das lideranças: sua abordagem à cibersegurança provavelmente está presa ao passado. Pois esqueça as listas de “tendências” e o alarmismo de sempre. Os dados revelam uma oportunidade estratégica que poucas organizações estão enxergando. Vou explicar isso, direta e objetivamente, a seguir:
O ABISMO ENTRE O CEO E O CISO
Eu atuei como CIO da UNESP, e atuo como pesquisador em Segurança Cibernética, há tempo suficiente para entender que relatório aponta uma desconexão fascinante: enquanto os CEOs agora classificam a fraude cibernética como seu principal risco, os CISOs continuam focados em ransomware.
Isso não é um problema de comunicação. É um sintoma de maturidade. Os CEOs veem o impacto financeiro direto da inovação desprotegida, enquanto os CISOs combatem as ameaças técnicas que paralisam a operação. A empresa que conseguir alinhar essas duas visões não apenas se defenderá melhor, mas transformará a segurança em um motor de crescimento inteligente.
O PARADOXO DA RESILIÊNCIA: EMPRESAS MADURAS SENTEM MAIS MEDO
Contraintuitivamente, o relatório mostra que as organizações mais ciber-resilientes são as que mais temem as vulnerabilidades da IA. E o que é apontado para as menos resilientes? É simples, e é o que eu esperava: elas se preocupam com fraudes mais simples.
O que isso significa? Que as empresas mais avançadas estão na fronteira da inovação. Elas não estão mais seguras porque evitam o risco, mas porque o compreendem em um nível mais profundo. Se a sua equipe de segurança não está preocupada com os riscos da IA, talvez a sua empresa não esteja inovando o suficiente.
GEOPOLÍTICA NÃO É MAIS UM PROBLEMA SÓ DE ESTADO
Para 91% das grandes organizações, a geopolítica já alterou a estratégia de cibersegurança. Isso vai além de se proteger contra ataques de estados-nação. Trata-se de uma nova camada de inteligência de negócios.Entender a geopolítica informa onde construir sua infraestrutura, com quem fazer parcerias e como desenhar uma cadeia de suprimentos verdadeiramente resiliente. Tratar a cibersegurança apenas como uma função técnica é deixar de ver o tabuleiro de xadrez global em que sua empresa está inserida. É arriscar. O Conselho da sua empresa tem quem faça isso? Seu Comitê de Cibersegurança faz isso?
A FORTALEZA COM PORTÕES ABERTOS
O relatório do WEF também aponta que a crescente inequidade cibernética, ou seja, a lacuna entre os que têm recursos e os que não têm, não é um problema social distante. É um risco sistêmico para o seu negócio. Sua organização pode ser uma fortaleza, mas se seus fornecedores e parceiros são vulneráveis, sua fortaleza tem os portões abertos suas muralhas são de vidro.
Investir na segurança do seu ecossistema não é filantropia. É uma estratégia de resiliência e uma vantagem competitiva duradoura.
O FUTURO É DA INOVAÇÃO GOVERNADA
A questão não é mais escolher entre inovação e segurança. O relatório mostra que a vanguarda das empresas está fazendo as duas coisas simultaneamente. As organizações sábias adotam IA não apenas como uma ferramenta de negócios, mas como um escudo, implementando uma governança que permite acelerar com confiança.
REPENSE SEU MODELO
O relatório do WEF é um convite para parar de pensar em cibersegurança como um centro de custo e começar a vê-la como uma capacidade estratégica.
Não se pergunte apenas “estamos seguros?”, mas sim:
- Nossa visão de segurança está alinhada com nossa ambição de inovação?
- Nossa percepção de risco reflete nossa maturidade ou nossa estagnação?
- Estamos usando a inteligência geopolítica para guiar nossa estratégia de negócios?
- Como estamos fortalecendo nosso ecossistema, e não apenas nossas próprias paredes de vidro?
As empresas que responderem a essas perguntas não serão as vítimas da próxima onda de ataques. Serão as vanguardistas que definirão o futuro. É isso que está escrito além das estatísticas alarmantes do relatório do WEF 2026. É “só” isso que você precisa saber.
Adriano Cansian é Professor Associado e Cientista Chefe do ACME! Cybersecurity Research Labs da UNESP – Universidade Estadual Paulista, e também Membro do Conselho de Pesquisa e Inovação (CTI) da Cylo Cyberloss Prevention.
E-mail: adriano.cansian@unesp.br