[BLOG] Série Especial “Entendendo os Ataques Cibernéticos”
Introdução
A Chamada de Procedimento Assíncrona (Asynchronous Procedure Call, ou “APC”) é um mecanismo do Windows que permite que rotinas sejam executadas no contexto de um thread específico, em pontos bem definidos de sua execução, tipicamente quando o thread entra em um estado alertável. As APCs são um componente legítimo e fundamental do sistema operacional Windows, amplamente utilizadas para operações assíncronas e notificações internas.
No entanto, esse mesmo mecanismo pode ser abusado por invasores para injetar e executar código malicioso no contexto de outros processos, explorando a confiança inerente ao modelo de execução por thread. Este artigo explora como a injeção de APC funciona e discute um conjunto de medidas defensivas, aqui referidas coletivamente como “APC Guard”, que podem ser adotadas para mitigar essa técnica de injeção sorrateira.
O Mecanismo de Injeção de APC
A injeção de APC é uma técnica de injeção de processo que abusa da fila de APC associada a um thread para executar código malicioso no contexto de um processo de destino. Em termos gerais, o fluxo do ataque envolve as seguintes etapas:
- Obter um Handle de Thread: O invasor obtém um handle para um thread pertencente ao processo alvo, desde que possua privilégios suficientes para isso. Essa etapa pode ser realizada por meio da função OpenThread.
- Alocar Memória no Processo de Destino: Uma região de memória é alocada no espaço de endereçamento do processo alvo para armazenar o código malicioso, normalmente utilizando a função VirtualAllocEx.
- Gravar o Código na Memória Alocada: O código malicioso é então gravado na memória previamente alocada por meio da função WriteProcessMemory.
- Enfileirar uma APC: O invasor utiliza a função QueueUserAPC para enfileirar uma APC associada ao thread de destino. Essa APC referencia um ponteiro para o código previamente gravado na memória do processo alvo.
- Execução da APC: Quando o thread de destino entra em um estado alertável, por exemplo, ao chamar funções como SleepEx ou WaitForSingleObjectEx, a APC enfileirada é executada, resultando na execução do código malicioso no contexto do processo legítimo.
Como o código é executado dentro do contexto de um processo confiável, a injeção de APC pode permitir a evasão de mecanismos de defesa baseados exclusivamente na identidade do processo. Além disso, quando combinada com a injeção em processos que já operam com privilégios elevados, essa técnica pode facilitar cenários de escalonamento de privilégios ou persistência avançada.
Medidas de Proteção “APC Guard“
Para se defender contra a injeção de APC, é necessário adotar um conjunto de medidas defensivas que atuam em diferentes camadas do sistema. Essas medidas, aqui referidas coletivamente como “APC Guard”, combinam monitoramento, restrições de acesso e análise comportamental:
- Monitoramento de API: O uso de funções de API frequentemente associadas à injeção de APC, como OpenThread, VirtualAllocEx, WriteProcessMemory e QueueUserAPC, deve ser monitorado, especialmente quando essas chamadas ocorrem em sequência ou em padrões temporais atípicos. A correlação dessas APIs pode indicar tentativas de injeção de código entre processos.
- Validação de Ponteiro de Código: Sempre que possível, valide os ponteiros de código passados para QueueUserAPC, assegurando que eles referenciem regiões de memória legítimas e esperadas. Essa validação é mais eficaz quando implementada por soluções que operam em nível de kernel ou por mecanismos avançados de EDR, dificultando que APCs apontem para regiões de memória injetadas.
- Proteção de Processos: Recursos de proteção de processos, como o Protected Process Light (PPL), podem ser utilizados para restringir o acesso a processos sensíveis do sistema. Ao impedir que processos não autorizados obtenham handles para threads ou processos protegidos, essas proteções reduzem significativamente a superfície de ataque para técnicas de injeção de APC.
- Sandboxing: A execução de aplicações em ambientes isolados ou sandboxes limita sua capacidade de interagir com outros processos do sistema. Essa abordagem reduz o impacto de um comprometimento inicial e dificulta o uso da injeção de APC como mecanismo de escape ou movimentação lateral.
- Análise Comportamental: Ferramentas de análise comportamental podem identificar padrões suspeitos, como um processo tentando alocar memória, escrever código em outro processo e, em seguida, enfileirar APCs. Mesmo técnicas que utilizam mecanismos legítimos do sistema operacional tendem a gerar comportamentos anômalos quando observadas em conjunto, permitindo a detecção de ataques de injeção de APC.
Limitações do “APC Guard”
Embora as medidas agrupadas sob o conceito de “APC Guard” aumentem significativamente a dificuldade de exploração da injeção de APC, elas não eliminam completamente esse vetor de ataque. Técnicas avançadas podem contornar monitoramentos baseados apenas em eventos isolados, abusar de processos legítimos já confiáveis ou explorar lacunas entre o modo usuário e o modo kernel. Além disso, a validação de ponteiros e a inspeção de APCs são limitadas quando realizadas exclusivamente em user mode, tornando soluções com visibilidade em nível de kernel ou EDR mais eficazes. Como em outras técnicas de injeção de processo, a defesa contra APC injection exige uma abordagem em camadas, combinando controles preventivos, detecção comportamental e resposta a incidentes.
Conclusão
A injeção de APC é uma técnica de injeção de processo particularmente sorrateira, capaz de explorar mecanismos legítimos do sistema operacional para contornar defesas tradicionais e, em determinados cenários, facilitar o escalonamento de privilégios. Sua eficácia está diretamente ligada à execução do código malicioso no contexto de processos confiáveis, o que dificulta a detecção baseada apenas na identidade do processo.
No entanto, a adoção de uma abordagem de defesa em profundidade, combinando monitoramento de APIs, validação de ponteiros de código, proteção de processos, sandboxing e análise comportamental, pode reduzir significativamente a superfície de ataque associada a essa técnica. O “APC Guard” não representa uma tecnologia única ou nativa do Windows, mas sim um conceito defensivo que reúne práticas e mecanismos complementares, os quais, quando aplicados de forma integrada, aumentam substancialmente a resiliência do ambiente contra a injeção de APC.
Como a [ CYLO ] pode ajudar
A detecção e mitigação de técnicas como a injeção de APC exigem visibilidade profunda do comportamento dos processos e da interação entre threads, memória e APIs sensíveis do sistema operacional. Soluções avançadas de segurança, como as oferecidas pela CYLO, permitem correlacionar eventos aparentemente legítimos, como alocação de memória remota, escrita entre processos e enfileiramento de APCs, identificando cadeias de comportamento que caracterizam tentativas de injeção de código. Além disso, ao integrar monitoramento contínuo, análise comportamental e respostas automatizadas, a CYLO auxilia as organizações a reduzir o tempo de detecção e resposta a ataques que abusam de mecanismos legítimos do Windows. Essa abordagem em camadas complementa estratégias como o “APC Guard”, fortalecendo a defesa contra técnicas de injeção sorrateiras e aumentando a resiliência do ambiente frente a ameaças avançadas.
Referências
[1] MITRE ATT&CK. (2020). Process Injection: Asynchronous Procedure Call. MITRE ATT&CK. https://attack.mitre.org/techniques/T1055/004/
[2] Picus Security. (2025). MITRE ATT&CK T1055.004 Process Injection. Picus Security. https://www.picussecurity.com/resource/blog/t1055-004-asynchronous-procedure-call
[3] Microsoft. (2021). Setting Security on an Asynchronous Call. Microsoft Learn. https://learn.microsoft.com/en-us/windows/win32/wmisdk/setting-security-on-an-asynchronous-call